Archive for May 21st, 2008
Ah! A Selvageria Desta Selvageria!
Ah! A selvageria desta selvageria! Merda
Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto!
Eu pr’àqui engenheiro, prático à força, sensível a tudo,
Pr’àqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando;
Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil;
Estático, quebrado, dissidente cobarde da vossa Glória,
Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta!
Arre! por não poder agir de acordo com o meu delírio!
Arre! por andar sempre agarrado às saias da civilisação!
Por andar com a doceur des moeurs às costas, como um fardo de rendas!
Môços de esquina – todos nós o sômos – do humanitarismo moderno!
Estupôres de tísicos, de neurasténicos, de linfáticos,
Sem coragem para ser gente com violência e audácia,
Com a alma como uma galinha presa por uma perna!
Álvaro de Campos, Ode Marítima, in Revista Orpheu, nº 2 (Abril de 1915)