Excesso de confiança no desconhecido – travões
Falamos de condução novamente. Devido a alguns episódios de excesso de confiança por parte de peões que literalmente atravessaram quando não deviam à frente do meu pópó fiquei pensativo e a tentar perceber porque as pessoas agem dessa forma. Resumidamente: irracionalidade, reacções excessivamente emocionais no momento errado, no local errado (sim, também existem alturas certas para se ser emocional e outras nem por isso). Aconteceu, no bairro lisboeta onde moro, uma atitude de excesso de confiança à mistura com uma primaveril provocação testosterónica por parte de dois homens jovens. Problema: o sistema de travagem anti-bloqueio, conjugado com pastilhas gastas e uma necessidade de revisão do veículo quase tiveram consequências menos simpáticas para toda a gente.
Falamos mais exactamente do excesso de confiança em factores que se desconhecem. Normalmente acontece aos peões. E, também, a alguns condutores com algum tempo de experiência mas que ainda não atingiram muito tempo de carta.
Para não maçar excessivamente falaremos apenas do excesso de confiança nos travões.
Os condutores adquirem o hábito de confiar na eficácia do sistema de travagem devido ao facto de, após várias experiências sucessivas, o sistema de travagem fornecer uma resposta positiva. Assim, e com o passar do tempo, o condutor adequa as suas distâncias de travagem e a velocidade a que circula, influenciado pelas experiências acumuladas ao longo de todos os dias da sua condução.
Este é um dos factores que mais afecta a forma de conduzir um veículo, pois com o tempo, ganham-se hábitos e rotinas que criam uma espécie de molde que vai formar a forma de conduzir. O condutor passa a adoptar a mesma acção perante locais e situações aparentemente idênticos. Há uma dessensibilização em relação à informação recebida da realidade envolvente e criam-se os famosos automatismos, que muitas vezes não permitem evitar os acidentes.
A condução passa a ser feita em função de tempos e locais e experiências recolhidas ao passar no mesmo local repetidas vezes. E, normalmente, com pequenas variações climatéricas e de velocidade instântanea. Isto causa que o imprevisto e as situações concretas e particulares de um determinado momento não sejam correctamente detectadas e avaliadas.
O facto de o sistema mecânico e electrónico do veículo, regra geral, se comportarem sempre da mesma forma perante factores idênticos ajuda à criação desses automatismos (para o bem e para o mal). Os travões são, então, um elemento que contribui para isso. O problema com esse facto é que alguns condutores terão tendência para conduzirem no limite das possibilidades físicas do piso, do veículo, dos outros e de si próprios, não guardando margem para imprevistos. O imprevisto não é algo que não aconteça, é simplesmente algo que sabemos que vai acontecer mais cedo ou mais tarde mas desconhecendo o momento exacto. É um pouco como marcar um encontro com alguém que se atrasa por sistema ou não aparece. Sabemos que um dia, essa pessoa aparecerá na data e e hora marcadas, mas nunca saberemos dizer quando. ;)
No caso da travagem e da respectiva distância isso é particularmente importante. A travagem não ocorre sempre da mesma forma. Num mesmo local podem ocorrer temperaturas diferentes, chuva, nevoeiro, as pastilhas podem estar mais ou menos gastas (o que altera o comportamento da travagem), os tambores idem aspas, aspas, podem existir mais ou menos peões, mais ou menos veículos, o condutor pode estar doente, pode encontrar-se sob influência de medicamentos (e de outras coisas), pode estar cansado e, claro, podem ocorrer os famosos imprevistos: peões que atravessam sem verem, peões que atravessam apesar de terem visto e que – também eles – confiam que “caso aconteça alguma coisa” o condutor vai poder travar, etc, etc.
Outro factor que afecta a forma de travagem é a existência, ou não, de sistema de travagem anti-bloqueio. Todos os condutores que já tenham conduzido automóveis com formas mecânicas de travar diferentes sabem o quão diferente é travar com esse sistema. Um automóvel com sistemas electrónicos de controlo de suspensão ou de aviso de obstáculos é também diferente de conduzir de um automóvel sem esses sistemas.
Logo, deve ser mantida uma saudável desconfiança em relação à forma como o veículo se vai comportar. Por parte dos condutores, claro. Por parte dos peões, necessariamente. Os peões, que são o elemento mais frágil do sistema rodoviário (não é necessária grande velocidade para que a massa de um veículo ao colidir com um peão provoque ferimentos irreparáveis), os peões, dizíamos, não devem confiar no estado mecânico dos veículos nem que todos os veículos se comportam em relação à travagem da mesma forma. As atitudes de excesso de confiança e, em alguns casos, de provocação podem resultar em ferimentos graves ou mesmo na morte. Na sua própria morte e na de pessoas queridas.
Mantenham-se sempre alerta!