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Carta aberta ao cidadão José Sócrates
Escrevo-lhe na qualidade de seu concidadão. Não votei em si. Quero que saiba que não pretendo, até este momento, votar em si.
Quero que saiba que, no exercício das suas funções, o senhor é o Primeiro-Ministro da minha Nação e que tem toda a minha solidariedade e apoio na forma como um ou outro orgão de comunicação social têm publicado pretensas notícias supostamente a seu respeito.
Carta aberta à TVI.
Não sou eleitor de Sócrates. Não sou filiado nem simpatizante com o Partido Socialista. Mas este vosso acervo de “notícias” sobre o caso Freeport… valha-nos Deus (se Ele fôr capaz, dado o desvario a que tudo isto chegou!).
“A polícia inglesa tem provas de levantamento em dinheiro destinados ao que julga serem pagamentos dos subornos referidos no DVD divulgado pela TVI, no âmbito do caso Freeport.”
ººº Ora vamos lá descascar a vossa notícia. A polícia inglesa não é usualmente conhecida por julgar. Por aquelas bandas de país nórdico e bárbaro, não é a polícia nem são os jornalistas – pasme-se! – que costumam julgar mas sim os tribunais. Daí nunca ouvirmos a polícia inglesa emitir comunicados em que julgam coisa alguma. Apenas investigam, recolhem evidências e o júri que julgue por si próprio. Segundo a vossa notícia, portanto, a polícia britânica teve um ataque de atirar bitaites, colocou o lápis na orelha, e vai de julgar, quer dizer achar, tipo “achamos mas não temos a certeza pois só os tolos têm certezas”… Pois claro! É tudo muito credível.
“Na gravação, Charles Smith referiu que a Freeport fez três pagamentos em parcelas de 50 mil libras à empresa Smith & Pedro, alegando tratar-se de pagamentos de subornos entregues em numerário a um primo de José Sócrates.”
ººº Ora, como estamos num país democrático, qualquer louco pode alegar o que lhe der na realíssima gana. E, como somos todos ingénuos, vamos todos juntos acreditar na primeira alegação que qualquer pessoa faça sobre qualquer outra. Ora alega-se que os pagamentos foram entregues a um cidadão mistério, que não tem nome nem personalidade própria, nem profissão mas cujo distintivo principal e única característica identificativa é ser “primo de José Sócrates”. É que, a identidade de um alegado envolvido no processo deve ser protegida. A identidade, imagem e direito ao bom nome não são, obviamente devidos ao chefe do governo da Nação portuguesa. Perfeito, perfeito assim, nem mesmo a cerveja que refresca a longa e angulosa garganta do Bruno Nogueira.
“a Serious Fraud Office, o departamento britânico que investiga o caso Freeport”
ººº Tomara os consumidores de informação portugueses terem uma “serious press”, mas isto cá é como lá. Há que imitar o que os outros têm de pior. Os bons exemplos, realmente são uma maçada. Cumprir códigos deontológicos é demasiado teórico. Para quê a seriedade? A seriedade é uma valente seca, não é verdade?
“Charles Smith acusa José Manuel Marques”
ººº Não acusa o Sócrates??!!! Eeeeeepa! Isso então assim? Não pode mesmo ser! O disparate! Quero o meu dinheiro de volta!
“Charles Smith fala de uma guerra pessoal entre José Manuel Marques e José Sócrates, o que justificava os pagamentos.”
ººº Esta sim! É uma clara prova do envolvimento do nosso PM num escândalo de corrupção! Alguém está em guerra pessoal com ele. Na minha terra a guerra é um fenómeno colectivo (foi-o durante a descolonização e durante a guerra civil), na terra de Smith parece que não. A guerra pode ser pessoal. Right on, Mr. Smith! E, como o tal senhor Marques estava em guerra pessoal com o PM precisava de financiamento para as munições… Pois… e o Sócrates, onde raio pára o dito no meio de tanta trapalhada?
Quanto ao título “Freeport: «Há demasiado fumo para não haver fogo» Vigilante explica por que é assistente. Advogado José Maria Martins pede equipa mista de investigadores luso-britânicos”. Bem, a vossa própria notícia acaba por ridicularizar a questão e o coitado do senhor vigilante. Esperemos que o advogado não tenha desempenho similar ao que teve com o seu último constituinte conhecido na praça pública. Presume-se portanto que o único intuito da mesma notícia é a possibilidade que apresenta de escolher um título como “Há demasiado fumo para não haver fogo”. Um velho adágio popular diz “quem brinca com fogo acaba por se queimar”. Os senhores conseguiram aumentar as vossas audiências durante uma semana (o ridículo atrai sempre o voyeurismo. Mea culpa, mea culpa) e, no mesmo passo, comprometer durante muito tempo a opinião e fidelidade dos vossos potenciais clientes e aumentar as fileiras dos admiradores de Sócrates.
Parabéns, portanto, pelo excelente contributo que têm dado ao nosso PM para que este seja eleito com maioria absoluta. Mais uma vez.